terça-feira, 14 de abril de 2015

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS


“Os humanos me assombram”
(Morte)



O livro é sobre Liesel Meminger e se passa na Alemanha Nazista no período de 1939 a 1943. Logo no início da narrativa, ainda com 9 anos de idade, Liesel tem seu primeiro encontro com a Morte. Isso ocorre enquanto ela, a mãe e seu irmão caçula, estavam em um trem a caminho de Munique. A mãe de Liesel era comunista e ia entregar os filhos aos cuidados de uma família alemã, que em contrapartida, receberia duas pensões por isso. No meio da viagem, o irmão de Liesel falece. No livro não se fala ao certo os motivos, mas creio que estão relacionados às constantes privações que passavam, dentre elas, frio e fome.

No sepultamento do garoto é que Liesel sente um profundo desejo de furtar o livro que estava de posse do coveiro. A impressão que tive é que essa era a única coisa que a faria lembrar do irmão, mesmo que isso não tivesse nada a ver com ele e não fosse dele também.

Depois de despedir-se da mãe, Liesel é levada para sua família adotiva na Rua Himmel, que significa  “Céu”. Lá ela encontra Hans Hubbermann, um pai muito amoroso, acolhedor, que se transforma também em seu porto seguro, seu melhor amigo e confidente. O pai, músico talentoso, foi muito dedicado na tarefa de fazer com que Liesel se adaptasse ao novo lar. Ao perceber sua afeição pelos livros, Hans ficava às madrugadas com Liesel no porão, ensinando-lhe as letras e depois como seu ouvinte quando ela era uma leitora talentosa. Hans também tocava acordeão quando Liesel tinha pesadelos e os dois faziam longos passeios pelo bosque. Os melhores momentos de Liesel foram com o pai.

Já Rosa Hubbermann, a mãe adotiva de Liesel, possuía um temperamento ferino e rude. Gostava de falar impropérios, até mesmo como forma de carinho. Todavia, era uma mulher muito trabalhadora e com um largo coração. Só não conseguia demonstrar carinho, talvez por ser algo ínsito à sua personalidade ou porque ficou calejada pelas misérias da vida.

Na Alemanha Nazista não foram só os inimigos de Hitler que sofreram. Muitos alemães sofriam com os infortúnios que toda guerra causa. A família Hubbermann morava em uma das ruas mais carentes de Munique, e em face disso, padeciam de fome, frio e as oportunidades de trabalho eram escassas.

Do mesmo modo, era a família do vizinho e amigo de Liesel, Rudy Steiner. Ele era um garoto da mesma idade de Liesel, que possuía fieis traços físicos alemães e cabelos cor de limão. Juntos, eles realizavam travessuras diversas, típicas de crianças, mas com um detalhe: Rudy era um garoto audacioso e galante, muito diferente dos demais. Ele era apaixonado por Liesel. Uma paixão tão pura quanto bonita e ele não tinha a menor vergonha disso, estava sempre demonstrando e não perdia a oportunidade de lhe pedir um beijo. Liesel, por sua vez, sempre negava e ficava brava às vezes, mas sentia um inconfesso amor por Rudy.

Mas Rudy não era só amigo de Liesel em brincadeiras de criança. Ele a ajudava no furto de livros. Dentre os poucos livros que Liesel tinha, os quais ela lia e relia por diversas vezes, dois o papai a deu de presente de natal, quando foi à feira e trocou por cigarros. Um foi furtado do cemitério, por ocasião da morte do irmãozinho, outro foi furtado ainda em chamas na praça, em um dia em comemoração ao Führer.  Os demais ela pegou “emprestado” na casa de Ilsa Hermann, esposa do prefeito e uma das clientes de sua mãe. Em quase todos esses furtos, o Rudy foi seu fiel cumplice, enquanto que na verdade, ele preferia furtar comida.

Rudy, assim como todas as crianças da Rua Himmel, estava quase sempre com fome. Com a guerra, não havia trabalho e os judeus que eram bons clientes, ou foram presos, ou tinham que ser boicotados. Com mais uma turma de garotos, Rudy e Liesel planejam seus furtos. A “quadrilhazinha” se organizava e invadia fazendas, onde atacavam árvores frutíferas, além da subtração de cebolas e batatas. Depois faziam uma grande roda, onde eles se deliciavam com uma comida diferente. Às vezes até fazia mal, já que o estômago estava acostumado somente com a sopa de ervilha que era feita aos sábados e depois requentada pelo resto da semana.

Apesar de todos os intempéries de uma vida de pobreza e toda a saudade que tinha de sua mãe biológica e seu irmão falecido, Liesel vivia feliz. Era uma felicidade terna e serena, ela se sentia amparada por seu papai e tinha a fiel companhia de Rudy.

Um dia, que tinha tudo para acabar como os outros dias, apareceu furtivamente, na residência dos Hubermann, um rapaz magricelo e de cabelos parecidos com penas. Seu nome era Max. Max era judeu e por ser filho de um amigo de Hans, ficou escondido no porão da casa. Max e Liesel ficaram muito amigos e rapidamente ela não conseguia perceber sua vida, sem Max. Eles passavam lendo e escrevendo histórias até às madrugadas. Além disso, na história de vida de ambos havia uma certa similitude: a perda de entes queridos em virtude da guerra, a tentativa de adaptação em um local completamente estranho e o ódio a Hitler.

Sim, foi por causa dele e de uma doutrina que Liesel sequer compreendia que ela nunca mais veria a mãe biológica e teve que presenciar a morte precoce do irmão caçula. Era por conta do nazismo também, que o pai adotivo, seu melhor amigo, estava sempre desempregado e só conseguia dar-lhe um livro de segunda mão de presente, porque renunciava a alguns cigarros. Era também por culpa do Reich que a mãe adotiva perdia os clientes, um a um, até que por fim, perdeu a esposa do prefeito que lhe deixava passar momentos inesquecíveis em sua biblioteca, com títulos diversos, infinidades de palavras e sonhos contados no horizonte de tantos livros. E foi também por culpa de Hitler que Max teve que um dia ir embora do porão, por não aguentar mais a culpa de colocar seus fiéis anfitriões em perigo.

Foram todas essas adversidades que Liesel enfrentou e a maneira como foi corajosamente lidando com tudo, que chamou a atenção da narradora do livro: a Morte. A Morte surpreendeu-se com a menina que roubava livros. Uma garotinha que conseguiu driblar a morte por três vezes e encontrava consolo em letras perdidas em pedaços de papel. A curiosidade de Liesel pelo conhecimento e o pacto sincero que fazia com as histórias que lia e escrevia a salvou praticamente todas as vezes.

O que mais chamou a atenção da Morte foi a generosidade de Liesel. Ela que não tinha nada, conseguia dar indizível felicidade a todos que estavam em sua volta. Ela que conheceu logo cedo toda a brutalidade que a vida pode oferecer, ainda conseguia passar aos que amava, esperança e doçura. Liesel, a menina que roubava livros, ofereceu aos que estavam perto de si, muito mais do que conseguiu ganhar com seus pequenos furtos: deu-lhes seu coração em forma de palavras, e isso é tudo que todos precisam e poucos conseguem.


quinta-feira, 19 de março de 2015

GUERRA DOS TRONOS

Sou viciada em seriados. Gosto de gêneros diversos, dentre eles, policial, drama, ficção científica, comédia e aventura. Demorei um pouco a comprar “Game ofThrones”. O primeiro motivo, foi que prefiro seriados que já acabaram, porque fico muito ansiosa aguardando as temporadas subsequentes. Mas pensei bem e optei por compra-la, sendo que uma das razões, foi que amei “O Senhor dos Anéis”, então imaginei que poderia ser um pouco parecido. Ledo engano.

Embora tenha uma pontada de fantasia, “Game of Thrones” é muito mais complexo que “O Senhor dos Anéis”. Não sou a primeira que vem escrever sobre “Game of Thrones” e muito menos serei a última. Meu artigo estará muito longe de ser o melhor ou mais autêntico sobre a série. Mas, tenho algo que compartilho com os fãs de “Game of Thrones”: a surpresa. A série superou e muito as minhas expectativas, é de tirar o fôlego.

Ao pensar e falar sobre a Guerra dos Tronos, não consigo ao certo definir em palavras a minha impressão sobre a série. Ao assistir “Game of Trones” sinto um misto de ansiedade, apreensão, pavor, tristeza, indignação. Durante alguns dias, sentia uma tristeza tão grande pelo destino de certos personagens, que pensei seriamente em deixar essa série de lado, mas é impressionante como ela me persegue durante todo o tempo.

A história se passa em Westeros, que é como se fosse uma antiga Europa. Em Westeros há sete reinos e o objetivo central da narrativa é mostrar as lutas dinásticas pelo trono de ferro. O trono de ferro é o trono do rei, que detentor dele, tem o poder de decidir sobre a vida e a morte de seus súditos. Além disso, existem os lordes, que são guardiões de determinadas regiões, como o Lorde Ned Stark, que é o Guardião do Norte.

Com um figurino fantástico e um alto investimento no cenário, “Game of Thrones” conseguiu demonstrar com muita verossimilhança, a narrativa exposta no livro, deixando expectadores do mundo todo, embevecidos com uma produção de tão alta qualidade.
A produção da Guerra dos Tronos, conseguiu trazer para a televisão, personagens de personalidades complexas, em especial, as mulheres. Existem personagens perversos, sádicos e também aqueles honrados e de bom coração. Mas existem também aqueles que se confundem entre o bem e mal. O ponto máximo da série é a vaidade. A busca pelo poder, que não raras vezes se torna inescrupulosa, de sorte a corromper muitos personagens que no início da série eram “bonzinhos”.

A série é repleta de tramas intricadas, conspirações e alianças improváveis para se obter o poder. Ao contrário das demais séries, “A guerra da Tronos”, não se apega em nenhum personagem. Embora existam vários personagens principais, o seu favorito pode morrer a qualquer momento.

Em “Game ofThrones” não existe muito pudor e quem tem estômago fraco não pode se aventurar nesse drama. A série é repleta de cenas de nudez, sexo, além de outras mais chocantes, como estupro, infanticídio, tortura, incesto e lutas corporais extremamente violentas. Os produtores não pouparam seus expectadores e mostraram como são os horrores das guerras medievais e como funcionava o “olho por olho, dente por dente”.

Eu recomendo para aqueles expectadores que não esperam um roteiro retilíneo e previsível, com um daqueles finais hollywoodianos em que o mal sempre é derrotado e o bem sempre triunfa. Talvez porque em “Game ofThrones” seu personagem preferido tenha se despedido há muito tempo, talvez porque em “Game ofThrones” o único fato previsível é que não veremos finais “açucarados” que terminam com um casamento e monte de bebês.  

terça-feira, 8 de abril de 2014

Sobre estar solteira



Eu costumo dizer que tem mulher casada que gosta do status de ser casada.

Algumas estufam o peito e dizem com orgulho: “Eu não, eu sou uma mulher casada, comigo é diferente.”.

Possivelmente dizendo-se assim é o mesmo dar o seguinte recado às mulheres solteiras: “Com vocês é permitido, afinal de contas, vocês não têm uma aliança no dedo!”.

Amigos e leitores do meu renascido blogue: qual o valor de um relacionamento? Que preço as pessoas pagam para se converterem às eternas imposições da sociedade? E por que os solteiros são tão estigmatizados? Por que sempre temos que ouvir: “mas você vem sozinha?”, “chama Fulano pra vir com você!”.

Nestes meus longos meses de solteirice, tenho observado, buscando material para os meus posts nunca escritos, quantos relacionamentos verdadeiramente, se fundam no sentimento sincero, de ficarem juntos, por amor.

Não estou falando de amor de novela, de beijo na chuva e de finais de hollwoodianos, porque, de fato, esses só existem na ficção ou são contados por aquela amiga que todos têm que só conta coisas boas do relacionamento. 

Não falo também de entregar-se a um namoro somente por carência e continuar acomodado nele porque a vida não vai te preparar mais nada.

Não falo também de ficar atrelado a um relacionamento doentio, onde a única prova de amor é o ciúme e existe um desequilíbrio emocional tão grande, que um cede tanto e o outro fica sem receber quase nada.

Tampouco falo da manipulação emocional. Nesse tipo de relacionamento, uma das partes molda o outro segundo seu gosto pessoal, e este, por ser suscetível e influenciável, nem vê que está ficando despersonalizado.

Falo da vontade de ficar juntos e seguir a vida lado a lado, respeitando a solidão intrínseca de cada ser humano. Cientes de que o "pra sempre", pode acabar e que teremos que nos refazer novamente. Juntar os pedacinhos dentro de nós que sobraram e formar novamente o vitral de nossas vidas. Mas, claro, viver o que vida tem para oferecer, pois, pessimismo demais, não combina com essas projeções.

Ser ou estar solteira nunca foi defeito. Defeito é não respeitar a individualidade das pessoas e nesse quesito a sociedade ainda vai demorar muito para evoluir. Ainda bem que eu estou evoluindo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

De onde surgem os amores




Uma amiga na casa dos 50 estava solteira há anos. Não tinha namorado e tampouco se sentia ansiosa com isso. Já havia casado duas vezes, tinha um filho bacana e podia muito bem viver sem amor, essas mentiras que a gente conta para nós mesmos.

De qualquer forma, para não perder o hábito, de vez em quando se produzia e ia pra balada, vá que. Mas voltava invariavelmente sozinha para casa. Até que um ex-paquera do tempo que ela era uma debutante fez contato ele, que morava no Exterior, voltaria para o Brasil e queria revê-la. Milagre by Facebook.

Ela disse claro, vai ser ótimo, mas não sabia quando exatamente a promessa desembarcaria no Salgado Filho. Seguiu sua vida. Foi para a piscina do clube num dia de semana e lá, estando acima do peso, suada e com um biquíni velho, escutou seu nome sendo pronunciado por uma voz aveludada. Era o dito cujo, testemunhando in loco no que a debutante havia se transformado depois de tantos anos. Ela pensou: o cara vai sair correndo.

Ele pensou: não desgrudo mais dessa mulher. E assim foi. Certa de que só estando impecável atrairia olhares, ela conquistou um guapo num dia em que se sentia pouco atraente.

Outra história. Atriz, loira, olhos verdes, leva um fora do noivo. Passa dias inchada de tanto chorar. Deprê em estágio avançado. A avó organiza um almoço do tipo italiano, aberto ao público. Ela vai e encontra um velho conhecido com quem brincava na infância. Ele, recém-separado. Ela, um trapo.

Ficam ali conversando, ela aos lamentos por sua situação, quando, em meio a soluços, a mulher se engasga. Mas engasga feio. De quase morrer. Uns 10 vieram esmurrar suas costas, e a guria vertendo lágrimas sem conseguir respirar, roxa como uma berinjela, já encomendando a alma. Ela me conta: naquele dia, eu havia saído de casa medonha, e o engasgo só piorou o quadro, eu parecia o demo convulsionando. Mas o amiguinho de infância não teve essa impressão. No dia seguinte, ligou para saber se ela passava bem, e estão casados há 15 anos.

Mais uma: depois de duas décadas de uma relação bem vivida, veio a separação amigável. Porém, mesmo amigável, nunca é fácil sair de um casamento, ainda mais de um casamento que não era um inferno, apenas havia acabado por excesso de amizade.

Ela pensou: agora é a hora do luto, um recolhimento me fará bem. Não deu uma semana e um estranho tocou o número do seu apartamento no porteiro eletrônico. Ela não reconheceu a voz, o nome, não sabia quem era, e não deu trela. Ele tentou no dia seguinte: ela tampouco abriu a porta, achou que o cara havia se enganado de prédio. No terceiro dia, ela resolveu esclarecer pessoalmente o equívoco. Desceu até a portaria para convencer o insistente de que ela não era quem ele procurava. Era.

Do que se conclui: de onde muito se espera – boates, festas, bares – é que não surge nada. O amor prefere se aproximar dos distraídos.


(Martha Medeiros)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Amor Acaba (Paulo Mendes Campos)



Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois do teatro e do silêncio.



Acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar.



De repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel, ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o escarlate das unhas.



E acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados; e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado.



Na insônia dos braços luminososos do relógio. Mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia.



No sábado depois de três goles mornos de gim à beira da piscina.



Em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadeza, onde há mais encantos que desejo.



Em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero.



Nos roteiros de tédio para o tédio, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada.



Em cavernas de sala e quartos conjugados, o amor se eriça e acaba.



No inferno o amor não começa.



Na usura o amor se dissolve.



Uma carta que chegou depois, o amor acaba.



Uma carta que chegou antes, o amor acaba.



O amor acaba na descontrolada fantasia da libido.



Às vezes acaba na mesma música que começou, no mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes.



No coração que se dilata e quebra e o médico sentencia imprestável para o amor.



Às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido, mas pode acabar com doçura e esperança.



Uma palavra muda e articulada e acaba o amor: na verdade, no álcool, de manhã, de noite, na floração excessiva da primavera, no abuso do verão e na dissonância do outono.



Em todos os lugares, a qualquer hora e por qualquer motivo o amor acaba.



Acaba para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O erro de São Tomé

São Tomé foi um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus Cristo cuja referência se dá em algumas passagens do Evangelho de João. Um episódio interessante encontra-se capitulado em João 11:16, por ocasião da morte de Lázaro. Jesus decide voltar à Judéia, onde anteriormente os populares tentaram apedrejá-lo. Em que pese a resistência de seus discípulos, o Mestre se manteve determinado. No entanto, é de Tomé a palavra derradeira: “Vamos todos morrer com Ele”. Alguns interpretam esse fato como sendo uma antecipação ao conceito teológico paulínio de morrer com Cristo.

Mesmo tendo demonstrado extrema devoção a Jesus, todos que já ouviram falar de São Tomé sabem que ele é lembrado por outro fato. São Tomé é conhecido como o discípulo incrédulo que duvidou da ressurreição de Jesus. Essa passagem é descrita também em João 20:24-29, quando Tomé exige que necessita sentir as chagas de Jesus antes de se convencer. Esse fato deu ensejo inclusive a um famoso dito popular que eu mesma cresci ouvido: “Eu sou igual São Tomé: só acredito vendo.”




Pergunto-me: e se São Tomé tivesse agido diferente? A história da ressurreição teria o mesmo sentido? Alguns podem responder que sim, foi só uma atitude banal, uma fraqueza humana ou mesmo uma atitude bastante a demonstrar a leviandade de seu caráter, já que a fé verdadeira consiste em acreditar sem enxergar, sem a necessidade de provas materiais. Outros, no entanto, podem afirmar que não, não é possível ter-se o mesmo sentido. Ora, sem a dúvida de São Tomé nunca poderíamos ter a real certeza da ressurreição, afinal, foi ele quem tocou nas chagas de Jesus, e viu que realmente o Mestre havia superado a morte.

Dispensando maiores reflexões acerca da necessidade da atitude de São Tomé para com o rumo da história cristã, vale tecer algumas impressões sobre a natureza humana, em paralelo com as passagens bíblicas acima narradas.

É incrível como às vezes somos lembrados somente pelos nossos erros e como as nossas falhas causam tanto impacto nos relacionamentos. Creio que um dos motivos é pela expectativa que outro tem a nosso respeito. Se a expectativa girar em torno de uma pessoa que se espera indefectível ou pelo menos de caráter ilibado, tem-se logo a cruel decepção por algum erro. Outro motivo é no que tange à incompatibilidade de intenções. Quando temos boa intenção esperamos que a intenção do outro seja recíproca. E se recebemos o contrário, o coração também se parte.

Todos nós já passamos por situações como a de São Tomé e sabemos o fardo de um erro. É que a natureza humana não é só falha, mas é também corrompível, vaidosa e tem necessidade extrema de ser reconhecimento. Dificilmente quem erra, reconhece o erro, pede perdão e tenta aprimorar-se. E quem pode aplacar a natureza? O inexorável poder que a natureza humana exerce sob a personalidade de alguém? A implacável força que os traumas exercem sobre nossas atitudes? Penso que o caminho da luz é difícil de ser percorrido, mas ele deve ser perseguido e alcançado, para que nossos erros não nos tirem o bem mais precioso que o ser humano pode ter: a paz de espírito.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Escrita e Libertação

"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir.
Não sou pretensiosa.
Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."

(Clarice Lispector)





Escrever para mim é mais que uma mera atividade. Escrever é libertação. Aqui, encontro aconchego, paz e forças que transcendem os limites do corpo, para alcançar a alma bem intimamente. É por isso que sempre recorro a estas “mal traçadas linhas” e busco o que não consigo encontrar no mundo externo.

Às vezes, a correria do trabalho, juntamente com a constante pressão do cotidiano, se alia aos nossos conflitos pessoais e nos dão a falsa impressão de que a verdadeira paz de espírito se dará quando ganharmos o mundo, nos tornarmos senhores de bens, valores, sucesso e fama. E, desta feita, passamos a peregrinar pela vida com esse único e absoluto propósito, de forma obstinada, suculenta e insensata até.

Mas a vida, que por diversas vezes, se revela traiçoeira, mostra de forma combativa que o seu propósito é muito mais denso, profundo e enigmático. A verdade é que não somos senhores de nada, nem mesmo de nossa própria existência. Estamos nesta vida de passagem e a nossa fragilidade humana pode ser desfeita a qualquer momento.

É claro que podemos realizar sonhos e encontrar o amor. Mas, como já escreveu Fernando Sabino com muita sabedoria: “Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade.”.

Sabemos que a paixão é facilmente confundida com domínio. É fato também que o amor quando canalizado de forma errônea é capaz de causar aneurismas. Mas de uma verdade nunca poderemos fugir. A de que ao encontramos o outro, devemos desprezar o sentimento de domínio e tentar alcançar o ideal: caminhar juntos, na mesma direção, de forma harmônica, sossegada e prazerosa. O amor nunca pode ser confundido com domínio. Este é irmão da vaidade e não se amolda ao verdadeiro significado do amor, que a meu ver, foi escrito com maestria por Vinícius de Moraes, quando assim o fez: “é um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias”.

A solidão, conforme já explanei em posts pretéritos é intrínseca ao ser humano. Querendo ou não, sempre estaremos sós, sempre seremos nossa única companhia. Completo o raciocínio citando novamente o grande Fernando Sabino ao preconizar que: “Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.”.

Quando me encontro contemplando minha própria solidão, volto-me para a arte, para a escrita, minha maior confidente. Deus para mim é salvação, mas escrever é libertação. É forma de autoconhecimento, é uma viagem interior que sempre toma rumos inimagináveis em meu coração. Está longe de minhas pretensões ser taxada como escritora, mas, confesso, com toda franqueza, que minha vida ganha maior brilho quando exerço este dom que Deus me agraciou, e eu com muita simplicidade tento exercitá-lo, com fé e devoção.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Tudo é Imponderável!

Por mais que fujas sempre,

um sonho há de alcançar-te

Se um sonho pode andar por todo o infinito.


(Florbela Espanca)





Certa feita, em uma aula de um curso jurídico que fiz, um professor, com muita sabedoria disse esta frase que utilizei como título e que volto a repetir: "Tudo é Imponderável!". E mais: dizia ele que a beleza da vida residia nesse fato único, ou seja, que a vida só se faz interessante porque sempre nos reservará inúmeras surpresas.
 
 
Não ouso discordar. Principalmente, porque nunca tive facilidade em planejar, admiro aqueles que conseguem traçar um plano pra vida e o cumprem com esmero. O fato é que na minha vida tudo foi se encaminhando até nos dias de hoje, e se faço planos, são poucos. Não obstante essa dificuldade de traçar planos, cumpro meu caminho com garra e persistência.
 
 
Não sei se por influência de minha criação católica, ou mesmo por gostar de questionar as questões filósoficas da vida, mas, sempre houve uma dúvida que permeou meu coração. O constante questionamento de que "existia um destino traçado para todos nós" ou "nós construímos tudo". Parece um questionamento bobo, mas pensemos. Se tudo na vida advém da nossa própria construção, por que nos deparamos com tantas coincidências, providências e por que não dizer oportunidades frutos de sorte ou mesmo frustrações ocasionadas pelo mero azar? Quem nunca se consolou dizendo: "Não era pra ser", "Não questione os planos de Deus para sua vida".
 
 
Por outro lado, a primeira hipótese causa decepção. Isto porque se ficarmos à mercê do destino nos acomodaremos e consequentemente estaremos desprezando o livre arbítrio, sem deslembrar que todas as nossas ambições tornar-se-ão poeira e pó.
 
 
Em conversa com uma amiga, sobre esse assunto, ela opinou com muita sabedoria da seguinte forma: "Devemos seguir a vida como se tudo dependesse exclusivamente do nosso esforço, mas, sempre lembrando, que tudo nos escapa".
 
 
Tudo nos escapa, assim como tudo é imponderável. Do mesmo modo em que podemos perder algo que desejamos e lutamos muito pra conseguir, por outro, devemos admitir que nossos sonhos sempre podem nos alcançar.  
 
 
Prova de tudo isso, são as variações que experimentamos na vida. Um dia estamos entretidos em meio a uma festa, celebrando a vida com família e amigos, no outro, podemos estar nos despedindo de alguém que amamos. Não é diferente a sensação de considerar que um sonho está perdido no passado, e, de repente nos depararmos com a possibilidade de realizá-lo.
O mesmo ocorre com pessoas que sempre estão passando por nossas vidas. Umas, sempre cruzam nosso caminho e nunca se tornam importantes, outras, desde o primeiro minuto tornam-se imprescindíveis.
 
A resposta de tudo é que "Tudo é Imponderável", "Tudo nos escapa", no entanto, um sonho sempre pode nos alcançar...
 
 

sábado, 18 de junho de 2011

Mentiras

“Ai quem me dera uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”

J.Dantas




 Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?


 
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!



Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito…



Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!



(Florbela Espanca - O Livro D’Ele)



sábado, 26 de março de 2011

É Patos ou Paris!

Como Parises que vão aumentando,
como insetos em volta da lâmpada.
Na cidade luz pipocam os foguetórios.




Orla da lagoa grande

Praça da Fonte

Catedral de Santo Antônio
Fotos e texto extraídos do site de Lívio Soares, retratando a indizível beleza de Patos de Minas - MG.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bruna Surfistinha

Ontem fui ao cinema e assisti "Bruna Surfistinha". O filme narra a história de Raquel Pacheco, estudade de 18 anos que sem motivo aparente fugiu de casa e enveredou-se na prostituição. O filme mostra os extremos do mundo das profissionais do sexo. Vai desde o glamour, o requinte do adultério até o submundo das drogas, dos clientes excêntricos, que na maioria das vezes causam repulsa em muitas mulheres.

Quando entrei no cinema, imaginei que seria mais uma dessas histórias de gata borralheira. Dessas que levam uma vida sofrida em casa, são molestas pelos pais, ou por extrema necessidade financeira precisam vender o próprio corpo. Enquanto assistia, reportou-me à memória a pálida "Dama das Camélias", livro de Alexandre Dumas, que narra a história da elegante cortesã francesa que vivia às expensas de homens ricos, no entanto, é transformada quando encontra o amor. E claro, não pude deixar de lembrar de Hilda Furacão, a garota do biquini dourado, integrante da alta sociedade belorizontia, que vai para a zona bohêmia a fim de transgedir convenções sociais formadas pelo falso moralismo da alta sociedade. Tanto a história de Hilda como de Margarida Gautier são travadas por dramas de amor impossível, atitudes heiróicas, tudo para nos sensibilizar e justificar a vida que levam.

Mas a de Bruna Surfistinha é diferente. É claro que não podia-se esperar um drama romanesco, repleto de passagens altruísticas de renúncia e paixão, pois se trata de uma história baseadas em fatos reais. Mas fiquei esperando uma justificativa consternadora ou talvez a redenção através do amor...

O fato é que não se falou muito da vida de Bruna antes da prostituição. Mas ficou claro que: ela foi adotada por uma boa família, teve boa educação, estudou em boas escolas. Se caiu na prostituição não foi por maltratos, necessidade financeira e tampouco porque tinha que sustentar filhos doentes. Depois que escolheu mudar de vida, Bruna nunca mais teve contato com os pais, nenhum pedido de desculpas, nada. Nem para saber se estavam bem, sem precisavam de dinheiro. Ela simplesmente deu adeus ao passado e disse ao final do filme que "às vezes sentia saudades da família e até da casa". Perguntada pelo personagem de Tato Gabus do porquê escolheu essa profissão, ela simplesmente disse: "Eu quero ser independente". 

Em entrevista ao SBT com a jornalista Marília Gabriela, Bruna afirmou: “Eu entrei na prostituição porque eu queria unir o útil ao agradável. Queria ganhar dinheiro e gostava de fazer sexo”.

Bem, não tenho esse blog para ser taxada como escritora, não almejo tanto. Talvez, mera pensadora ou expositora de idéias. Idéias Banais, "meros devaneios tolos", como alguém já cantou. E tampouco, quero firmar "normas de conduta" ou rotular as pessoas.

Mas ao sair do cinema, mais do que em Bruna, pensei nos pais de Bruna. Fiquei imaginando que nunca mais a família se reestruturou. Uma pessoa ingrata, de fato, é capaz de causar transtornos em muitas outras pessoas. Tudo isso, me lembrou uma frase que, coincidentemente, li semana passada, de um escritor chamado Samuel Johnson: "A gratidão é um fruto de grande cultura, não se encontra entre gente vulgar.".


Respeito posicionamentos contrários, aceito críticas, principalmente daqueles que venham a me achar conservadora demais, mas fica minha impressão sobre o filme. De todo o mais, vale a pena a assistir!


sábado, 5 de março de 2011

Amores Tristes da Literatura

... Pois todo grande amor só é bem grande se for triste.

(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)






Certa feita, durante a leitura de um conto de Rubem Alves, que fugiu-me da memória o nome agora, fiquei extasiada com sua exposição sobre histórias de amor na literatura. Segundo ele, as histórias mais sublimes são tristes. Isto porque só as histórias tristes de amor, podem ser objetos de literatura. As histórias felizes, a seu turno, não precisam ser escritas, ao contrário, elas devem ser vividas, na plenitude de dois seres, dois corpos, não sendo preciso exteriorizar uma história exitosa de amor.

E a mim, restou-me, concordar com o grandioso contista. E na minha memória de relapsa leitora, insurgiu histórias de amores tristes da literatura que já li. A primeira delas, e a mais clássica, é Romeu e Julieta. Não podia ter outro final o drama shakesperiano, senão com a morte dos apaixonados. Num drama de amor de causar aneurismas, os protagonistas não encontraram outra alternativa, senão a de entregarem-se à morte, já que não poderiam concretizar seu amor e tampouco um continuar vivendo sem o outro.

Melhor sorte não tiveram Simão Botelho e Tereza de Albuquerque do livro “Amor de Perdição”, escrito pelo romancista português Camilo Castelo Branco. O motivo foi o mesmo que proibia Romeu e Julieta de ficarem juntos: rixa de família. Para tentaram impedir o romance, a família de Tereza a enterra num convento. Simão, na tentativa de resgatá-la, acaba por balear um primo de Tereza e é condenado à forca. Posteriormente, por influência do pai de Tereza sua pena é modificada para dez anos de degredo na Índia. Ao embarcar, vê sua amada morrer de tuberculose. Na verdade, o mal que matou Tereza foi a certeza que não mais veria seu amado. Tereza morreu de amor. Simão, desolado, e sem razão para continuar vivendo, morre nove dias depois e seu corpo é lançado no mar.

Não foi menos triste a história de amor narrada por Eça de Queiroz no livro “Os Maias”. Os irmãos Carlos Eduardo e Maria Eduarda foram separados em tenra idade por conta de um desatino da mãe, e quando adultos, encontram-se em Lisboa, e sem que tivessem um mínimo de conhecimento da verdadeira história de suas vidas, se apaixonam à primeira vista, tendo vivido, na sequência, um tórrido e incestuoso romance. Por conta de um amontoado de acontecimentos descobrem a consangüinidade, foi então que resvalam em um profundo tormento. A separação foi inevitável. A vida para eles nunca mais teve sentido. E tampouco as fantasias e sonhos da infância se concretizaram. Tudo que eles tinham ficou perdido no passado, juntamente com aquele fatídico romance.

O destino também não foi favorável com a belíssima Hilda Furação e o Santo Malthus, romance brasileiro narrado por Roberto Drummond. Ela, uma garota da alta sociedade belorizontina, que no altar desiste de casar e vai se instalar na zona boêmia. Ele, desde criança criado à luz da doutrina católica e tinha como sonho ser santo. Mal sabiam os protagonistas, que muito embora as diferenças que os separavam, a vida lhes reservava uma surpresa. Eles se apaixonariam durante um duelo em que o “Santo” pretendia exorcizar Hilda. Por aí já se percebe o quanto eles lutaram para reprimir esse amor e o quanto ele era proibido. Inútil. O que separou definitivamente Hilda de seu grande amor foi um desencontro. Cinco minutos. Eles marcaram de fugir juntos e o "Santo", em face de uma fatalidade, desgraçadamente se atrasa cinco minutos. Por essa razão, mais um grande amor ficou perdido no tempo e tornou-se fruto de literatura.



Com efeito, um fato é comum a todos os casos que acima elenquei: a beleza que existe em situações tristes. Em outro texto citei uma frase de Renoir, mas, creio que vale a pena repeti-la: “a dor passa, mas a beleza permanece”. A beleza é intrínseca a situações tristes. E às vezes ela é tão intensa, tão pungente, tão impressionante, que fica indescritivelmente bela. E claro, as histórias tristes causam uma estranha apreensão ao leitor. Sempre esperamos que no último instante, a história mude, e nossos heróis tenham sucesso. Fica-se a expectativa de que, se em determinado ponto os personagens tivessem agido diferente, a história poderia ter vingado. Mas se assim acontecesse, possivelmente, não seria objeto de literatura. Seria de algum folhetim, filme ou teatro, que causaria um êxtase momentâneo, mas rapidamente cairia no esquecimento. O que é diferente dos romances tristes, porque estes permanecem vivos na memória. Afinal, a beleza permanece.















domingo, 6 de fevereiro de 2011

Escreve-me...

(Florbela Espanca)


 
 
 
Escreve-me! Ainda que seja só


Uma palavra, uma palavra apenas,


Suave como o teu nome e casta


Como um perfume casto d’açucenas!






Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo


Que te não vejo, amor! Meu coração


Morreu já,e no mundo aos pobres mortos


Ninguém nega uma frase d’oração!






“Amo-te! ” Cinco letras pequeninas,


Folhas leves e tenras de boninas,


Um poema d’amor e felicidade!






Não queres mandar-me esta palavra apenas?


Olha, manda então... brandas... serenas...


Cinco pétalas roxas de saudade...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lenda do Tsuru!

Monumento a Sadako Sasaki -
Parque da Paz de Hiroshima

A menina Sadako nasceu em 1943. Em 06 de Agosto de 1945, quando ela tinha dois anos de idade, foi lançada em Hirochima (Japão), a bomba atômica. Muitos vizinhos de Sadako morreram, contudo, ela não se feriu. 

Sadako cresceu forte, corajosa e praticava atletismo. Em 1955, participou de uma grande corrida e fez seu time vencer. Depois disso, sentiu-se muito cansada e teve tonturas. Em virtude de todo esforço despendido na corrida, ela imaginou que era um sintoma normal e não se importou.

Entretanto, posteriormente, Sadako voltou a sentir tonturas a ponto de não conseguir se levantar. Ao ser levada ao hospital, foi diagnosticado que se tratava de leucemia, “a doença da bomba atômica”.

Enternecida, Chizuko, a melhor amiga de Sadako, foi visitá-la no hospital, presenteando-a com papéis de origami. Na oportunidade, contou-lhe sobre uma velha lenda japonesa, dos 1000 tsurus.

Chikuso explicou a amiga que o tsuru é uma ave japonesa sagrada que vive 1000 anos e que aquele que dobrasse 1000 tsurus de papel teria um desejo concedido. Repleta de esperanças, Sadako clamou aos deuses que lhe concedecem a cura para que pudesse correr novamente. Assim, a menina passou a dobrar os tsurus de papel, isto contando com a ajuda de sua família que frequentemente a visitavam no hospital.

Logo no início da sua façanha, Sadako conheceu um menino que padecia da mesma doença e tinha também pouco tempo de vida. A menina tentou animar o companheiro para que ele também dobrasse os tsurus, mas obteve a seguinte resposta: "sei que esta noite morrerei". Por mais esta razão, Sadako pensou que não seria justo pedir a cura só para ela, e suplicou aos deuses que o esforço que ela estava fazendo, servisse para trazer a paz e a cura a todas as vítimas do mundo.

Todavia, malgrado todo seu esforço, Sadako faleceu depois de dobrar 964 tsurus, no dia 25 de Outubro de 1955, aos 12 anos, depois de permanecer 14 meses no hospital.

De fato, o mais emocionamente nessa história é que Sadako nunca desistiu. Ela continuou a dobrar os papéis enquanto morria. Inspirados na sua coragem e força, seus amigos e colegas de escola montaram um livro com as cartas escritas por ela e publicaram. Dessa maneira, eles começaram o sonho de construir um monumento para Sadako e para todas as crianças que faleceram em razão da bomba atômica. Jovens japoneses passaram a arrecadar dinheiro para esse projeto.

Em 1958, foi erguida a estátua de Sadako no Parque da Paz de Hiroshima, segurando um tsuru dourado. As crianças também fizeram um desejo e escreveram-no na estátua: "Esse é o nosso grito. Essa é a nossa reza. Paz no mundo!"


Venha dobrar mil tsurus pela Paz!

O Tsuru é um dos animais que simbolizam a mocidade eterna e felicidade da Ásia. Diz-se que vive 1000 anos. São, possivelmente, os pássaros mais velhos da Terra.

Era considerado o pássaro companheiro dos eremitas que faziam meditação nas montanhas. Como esses eram eremitas místicos, que supunham terem poderes sobrenaturais para não envelhecer, o tsuru, passou a ser considerado um pássaro possuidor de vida longa.

É uma das aves mais conhecidas do Oriente, perdendo apenas para a Fênix, a ave que renasce das cinzas. Já a cegonha é considerada a mãe de todas as aves e representa o canal entre o mundo dos vivos e dos mortos.

Algumas vezes a imagem do tsuru é colocada em caixões, para que a alma do morto seja levada para o céu em suas costas. Como um símbolo de longevidade, os japoneses costumam presentear os amigos com uma dobradura de papel (origami) em forma de Tsuru.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Afinando a Língua

Com Tony Bellotto

Nessa última terça-feira, das 21h às 22h começou com muito louvor, a nova Temporada do Programa “Afinando a Língua”, exibido no Canal Futura.

Sob apresentação do músico Tonny Bellotto (guitarrista da Banda "Titans") a nova temporada terá 13 episódios, contando com a participação de nomes como Maria Gadú, Ana Cañas, Mallu Magalhães, Alceu Valença, Fino Coletivo, Rodrigo Maranhão e Frejat. E também tem um especial com a banda Curimba, eleita pela internet na promoção Banda Afinada.

“O cenário foi totalmente reformulado, entrando mais no clima de garagem. Seguindo o estilo visual, os clipes foram substituídos por apresentações musicais no palco e os quadros dedicados à língua portuguesa foram diluídos ao longo da entrevista, que ficou mais extensa.”. (Fonte Canal Futura)

Nesse primeiro episódio Maria Gadu mostrou todo seu talento e encanto. Durante a entrevista feita por Tonny Bellotto a cantora falou de sua obra, carreira e estilo musical. O apresentador então, explorou aspectos de linguagem das suas composições, a influência cultural que elas geram, bem como revelou as histórias que levaram Maria Gadu a compor as músicas.

“O quadro A Propósito, de conteúdo gramatical, continua presente, e sempre vai pegar um trecho de uma das músicas do artista convidado para fazer uma análise de linguagem, figuras de linguagem, tempos verbais, pontuação ou qualquer outro elemento que possibilite uma dica gramatical. O Povo-Fala vai ser gravado em locações externas que tenham alguma relação com o universo do artista presente no palco. Já no Dica Afinada, Tony Bellotto continua dando dicas de livros, filmes e CDs relacionados aos assuntos tratados no programa.”. (Fonte Canal Futura